Comunicamos o incomunicável,
esbanjamos o que sempre falta,
duplicamos o já duplicado,
fragmentamos a metade do meio
mas mesmo assim ainda sobra um pouco de espaço,
sobra tempo para uma música, uma dança,
sobra o tempo da criança,
sobre as costas do adulto
sombra e água, fresca brisa,
um botão de rosa na camisa,
a forca aos inocentes
e ouro ao rei do nada,
ao homem de lugar nenhum a foice,
ao sábio o que é mundano,
e ao mundo o que é do mundo,
tudo em seu devido lugar.
Na corda do relógio,
os ponteiros da incerteza,
no amplo espaço do tempo
as fases da demência,
aos tolos o que é dos tolos,
ao mundo o que é do tempo,
ao tempo o que é do louco,
ao sábio o que é do pouco,
ao muito o que é do nada,
aos poucos, o que enlouquece
enobrece a vida,
aos muitos nada entardece,
nunca é dia de inverno.
Alivio Diario
Posted: sábado, 17 de julho de 2010 by Monty Cantsin infalou,
fingiu fincar bandeiras
formou
seus planos de conquista
correu
morou em ipanema
mascou
chicletes coloridos
mofou
no alto de armários
mesclou
com ódio e inocência
o saber
falar com indiferença
sorrir
passou por desenganos
chutou
contida por si mesma
irá
contar, cavar buracos
morrer.
Todas as manhãs
Posted: sábado, 3 de julho de 2010 by Monty Cantsin inTodos os dias acordo pela manhã e espero que ela venha correndo até mim e pule em meu colo com seu jeito estabanado de sempre ser, fico esperando a todo momento que a porta se abra e por trás dela eu possa ver seu sorriso brilhante, digamos que até certo ponto, infantil; ainda espero todos os dias acordar pela manhã sentindo cheiro de café recém passado, ficar encostado no batente da porta simplesmente assistindo sua alegria matinal, dançando e cantando de pijama na cozinha; todos os santos dias eu espero que quando a noite chegar ela possa escutar meus lamentos de um dia estressante, que possamos juntos, sentar no sofá e assistir algum programa meia boca ou o telejornal diário enquanto passo a mão por seus cabelos, faço comentários livres de qualquer graça... mas ela ri.
Todos os dias acordo pela manhã e espero ouvi-la cantando “ I don’t wanna miss a thing” enquanto se banha, espero que reclame por eu não ter enxugado o banheiro direito, por ter deixado a toalha molhada em cima da cama, por estar sempre atrasado, sempre despreocupado, que reclame de meu cabelo, minha barba que espeta, minha meia no teto, minha fala correta, meu dedo no bolo, meu sono profundo.
Todos os dias, acordo pela manhã e dou por mim... dou uma topada com o dedo mindinho na realidade e me reconforto com meu cigarro amassado e meu café mal passado enquanto aprecio aquele estranho quadro a óleo pendurado em minha sala de estar que tudo diz, aquele labirinto de sensações e cores que me faz vislumbrar um mundo novo a cada momento, todas as cores do borrado cotidiano ganham mais vida quando caminho por aquela estrada uniforme tocando as flores sem forma que para mim, são o maior exemplo da perfeição; o contraste de cores e odores me faz partir daqui para outro lugar, um lugar desconhecido que até hoje não sei como faço para chegar, mas sei, que lá esta ela a minha espera, como em todas as manhãs, como em todos dias frios.
Todos os dias ainda acordo pensando que tudo pode ser diferente quando caminho pela casa fazendo eco com meus passos pesados, quando fico estático na janela por horas me divertindo com a felicidade alheia.
Todos os dias o mesmo pensamento aparece e desaparece em um ritmo frenético, alucinante, pronto para fazer com que o mais forte dos soldados se ajoelhe e peça perdão a Deus pelos males que já causou.
Todos os dias ainda encaro a porta em determinado horário esperando por algo que não ira acontecer, algo que não mais existe, algo que habita o surreal plano das recordações bem vindas.
Olhos Tristes
Posted: quarta-feira, 30 de junho de 2010 by Monty Cantsin inPor que conquista-me com olhos tão irresponsáveis,
olhos perdidos em seu próprio tempo?
Por que me repele com olhos tão tristes, olhar taciturno?
O nobre, a dama, o vagabundo,
um dia qualquer que se passa,
um outro dia comum para o mundo,
um outro dia plantado em casa,
com olhos tristes, cabeça baixa,
aonde quer chegar? Qual estrada olhos assim avistam?
Olhos que vêem o fim do mundo antes de todos,
tristes, pois transformam dor em alegria.
Por que me olhas com olhos tão tristes?
Será que o mundo é de fato tão sádico, tão problemático?
A frente nada mais existe, aos lados, quem sabe,
o passado então transforma-se em angústia
quando deveria ser recordação bem-vinda,
recordação passa a ser tragédia, o intento do eterno machuca,
o eterno não existe, tudo acaba, um dia acabaremos,
um dia nada mais sobra da cabeça que pensa,
nada mais sobra dos momentos felizes,
nada mais sobra dos momentos tristes,
não sobram nem mesmo os momentos,
não sobra nem mesmo o resto do resto.
Por isso então hei de carregar olhos triste,
hei de carregar o mundo nas costas,
as dores no coração, as lembranças na cabeça,
a faca nas mãos e as botas nos pés.
Por que olhos tão tristes e lágrimas tão salgadas?
Por que tanta falta de cor, tanta nebulosidade?
Por que tanta lembrança, tanta saudade?
Por que falar tão pausado, sentir tão recluso?
Por que se interrompe com tantas paradas?
Por que se desgasta com falta de uso?
Por que me olhas com olhos assim tão tristes?
Por que me olhas com olhos assim tão tristes?
Abismo
Posted: sábado, 12 de junho de 2010 by Monty Cantsin inÉ onde encontram-se os grandes homens, as grandes decisões,
é ponto final ou começo de tempo novo sem fim,
o altar das demências, o torpor da inocência,
no abismo as decisões são corretas,
no abismo e somente no abismo,
as loucuras são louváveis,
os amantes, amados,
no abismo, no fim,
no começo,
abismo.
Pensamentos intransigentes não levam ao topo, não morrem sem cor,
são meros instrumentos da lavoura dos maus augúrios,
a falta de controle representa a fraqueza necessária,
a fraqueza que enobrece, maltrata, engrandece,
e torna a ser fraca novamente, no abismo,
a franqueza de todos é fato,
os problemas são falsos,
a escolha, é faceira
o resultado?
Abismo.
No abismo os que se encontram se sabem menos do todo ou do nada,
se sabem sem saber o que de fato representa o verbo,
se impulsionam lado a lado, ombro a ombro,
contra o vento, contra o erro, abismo,
desespero, mas não derrota,
cansaço, dores lancinantes,
o fim no recomeço,
o nada no total,
pensar enfim,
abismo.
No abismo os sentimentos se reúnem, festejam o fato de serem soberanos as vezes,
a razão não desce, a razão não sobe, é simplesmente razão, analítica, fria,
os que se salvam não esperam poder pensar, poder viver, poder amar,
pois depois do fim, depois do abismo, depois de tudo, algo muda,
e se assusta... afaga com mãos de donzela, se maltrata... beija,
se machuca logo cura, nunca se estende, o abismo não mata
não morre, não vive sem viver, abismo
espera simplesmente o dia, o treino,
a coisa que homem do mundo,
precisa, e deve de fato saber,
para assim ser chamado,
homem do mundo,
herói vagabundo,
ser homem,
no abismo.
As regras são folhas que voam, pedaços de letras na nuca dos tolos,
são o principio, a exceção, a necessidade desnecessária,
a jaula dentro do abismo, a forma que diz trapaceira,
no fundo do abismo a luz brilha forte, insana,
o pensar em seu nível supremo se faz,
não sem querer, não aleatório, e sim
torna o pensar do ser soberano,
em questão dos sentidos,
sentimentos batidos,
atordoado sentir,
gostoso, cruel,
supremo,
abismo.
Chega a noite e um homem chora, um choro abafado, dolorido, envergonhado.
Um choro de criança, lágrimas violentas, insanamente graciosas, puras.
Um homem chora enquanto o mundo todo sorri,
um homem que escolhe sua própria liberdade de não escolher, atônito,
selvagem, meramente homem, puramente homem, nada mais que nada,
talvez uma gota, ou simples acaso,
quem sabe até mesmo matéria, excesso de formas,
um dia um paspalho, no outro também.
Um homem que escolhe errado,
um simples homem, uma dádiva, uma dúvida, um folclore,
pedaço de tronco, pastilha no asfalto, solitário e não sozinho,
derrotado, ameno, o homem não sabe, o homem não faz,
se vive... é por simples convenção, habito, costume.
Nada foi homem, nunca foi mundo, partícula,
o cume de suas próprias entorpecentes visões declina,
o faz vislumbrar o céu, o limite, e a honra de homem que é forte,
não chora, não se entristece, não morre.
Durante a noite, um homem chora,
a dor do mundo, a fortaleza desaba, um choro comum de todos que choram,
sentidos?
Na dor não existem sentidos, é puramente escolha,
Arbitrária? A dor não é arbitrária, é frágil, é bela
germina na arte sementes de angústia, floresce, negras rosas,
velhas orquídeas, meros jasmins.
O homem não chora, o homem não morre, o homem não sabe viver,
a arte é quem mata, a arte é quem sofre, o poeta ?
Um simples instrumento da alma que chora,
um homem que chora, razões? Quem precisa de razões?
Um homem chorando já basta,
as dores do mundo no peito de um só.
(lentamente)
o coração parece não bater,
as idéias parecem estar batidas
(remoidas)
misturadas e absurdas
(vazias)
A vontade de querer se torna
(fraca)
a moleza do dizer se torna
(angústia)
quando tudo que se quer é uma
(faca)
para dividir em dois pedaços
(pensamentos)
